segunda-feira, outubro 02, 2006

DE BOAS INTENÇÕES... ( o texto é duro, mas este blog é excêntrico...)

Finalmente alguém diz o que é preciso dizer sobre a reforma da Administração Pública: "Primeiro temos que saber o que é que queremos que a Administração Pública preste à sociedade. E só depois, saber quais os recursos a utilizar e os locais onde há gente a mais e a menos" (Luís Fábrica in Correio da Manhã de 01/10/2006)

Nem mais!

Questão outra é saber se há cojones para operar essa mudança.

A Administração Pública é uma gigantesca rede de pequenos e grandes poderes, susceptíveis de viabilizar ou paralisar qualquer actividade, qualquer procedimento em curso.

Pode ser, se houver engenho, arte e, sobretudo, VONTADE, uma arma pro desenvolvimento.

Pelo contrário, pode continuar a ser uma ratoeira na qual o desenvolvimento tropeça e cai, se movida por interesses tão escusos quão complexos ou de complexa textura subterrânea.

Quando se descobrir por completo que uma boa parte dos procedimentos e passos procedimentais que a Administração Pública actualmente adopta, embora formalmente no cumprimento de lei substantiva, não são necessários a uma boa administração, logo se perceberá (como já aqui e ali se percebeu) que a primeira linha da reforma da Administração Pública passa pela reforma das leis substantivas (e adjectivas, certamente), daquelas mesmas leis que exigem pareceres, vistos, carimbos, deferimentos, assentimentos, preenchimentos, formulários, cartões, declarações, e mais umas dúzias de outras tantas inutilidades burocráticas que, precisamente, de nada servem mas apenas para a manutenção dos poderes das capelinhas.

Poderes laboriosamente tecidos ao longo de décadas ainda da outra senhora e ao longo de décadas gulosamente aproveitados pelos sucessivos governos ditos democráticos.

Mas, é claro, perspectiva-se haver uma enorme distância entre o que de boa fé e ciência feita diz Luís Fábrica, embora sob encomenda do poder quanto à reforma, e o que o executivo irá previsivel e efectivamente pôr em prática.

A perna será, infelizmente, bem mais curta do que o passo a dar!


É que não estou a ver que de um momento para o outro se despromovam a cabos e sargentos os majores das capelinhas.


Nesta teia que é a Administração Pública, boa parte das suas chefias vive em perfeita simbiose com o poder sufragado.


A governamentalização das estruturas e instituições públicas não é coisa espúria à nossa so called democracia.


E mesmo que
numa parte se alcance uma reforma com a profundidade denunciada por Luís Fábrica, restará previsivelmente uma outra substancial parte, que se destinará, como sempre, aos boys do sistema.

Haverá, pois, uma aparência de reforma.

Tal como tem havido, em inúmeras áreas, entre elas a da justiça, uma aparência de reforma.

Previsivelmente, o Governo colherá a glória de uma dita reforma feita com "grande coragem", contra os "poderes corporativos" e os "privilégios instalados".

Mas, tudo espremido, é limão de onde não sai sumo.

E os Portugueses, que nos últimos tempos parecem não ter coragem para muito mais do que olhar para o seu próprio umbigo, admiram, na sua cobardia, a putativa coragem de um Governo que diz mais do que efectivamente faz, um Governo fanfarrão, sabidolas, capaz de travestir de "reforma de coragem" as mais abstrusas medidas governativas, de que é exemplo uma boa parte do que se vem assistindo na Justiça.

A Administração Pública é um aparelho demasiado precioso para qualquer partido político no governo ou com aspirações a governo, para que seja reconduzida à sua expressão e condição de simples e mera Administração Pública.

Isto digo eu.


Cada um que pense pela e com a sua própria cabeça.

sábado, setembro 30, 2006

QUE MERDA!

Paira no ar (no meu ar, pelo menos) o desencanto.
A tristeza.
Não são apenas os dias cinzentos das primeiras águas.
É a cinza pestilenta de um certo "ser português".
Parece uma maldição.
Lê-se, vê-se, ouve-se em todo o lado.
E, como dizia a Sophia, não podemos ignorar.
Não é bom nem é mau.
Nem sei se poderia ser melhor.
Pior pode sempre.
É apenas a consciência profunda, oriunda da realidade patente que nos entra pela cara adentro, de que o José Gil tem toda a razão.

Todavia, alienamo-nos constantemente.
Negamos a realidade, na crença de que o pensamento positivo é o melhor remédio.
Na crença de que são as nossas maleitas idiossincráticas que nos derrotam.
Na crença de que provavelmente esta núvem que me despeja água em cima é produto da minha imaginação.
Será.

Acreditamos, porque queremos acreditar, porque devemos (?) acreditar, na bondade das pessoas, das instituições, até das coisas...
E nos nossos relacionamento pessoais podemos (quiçá devemos! De qualquer maneira , é o que nos resta!) confiar nas pessoas. Individualmente.

No mais, o colectivo é um desastre.
As instituições são, em regra, um desastre.
Não há uma estratégia e um desígnio nacional.
Há uma deriva, parece ter sempre havido, uma deriva ao sabor das marés e das correntes dos interesses vários.
Descobrem-se, a cada passo, trafulhices, falcatruas, mais 40 administradores que ninguém conhecia, mais 15 administradores a ganhar fortunas, pagos pelos nossos impostos sem nada produzir, apenas tacho, tacho e mais tacho (apenas um pormenor...).
O que um Governo faz, outro a seguir desfaz.
As lógicas dos interesses pessoais e partidários acima do desígnio colectivo.

O Governo está preocupadíssimo em tapar uns quantos buracos no espalhador do regador com que rega os canteiros da educação, da saúde, do equipamento público e outros essenciais que tais.
Chama-lhe controlo orçamental.

Mas, sendo visíveis os inúmeros buracos ao longo da mangueira de rega, ignora-os, sendo certo que desses buracos sai quantidade substancial de água clandestina.
Que canteiros são regados com esta água clandestina?


Há quem escreva pérolas destas: "É uma sorte para Portugal ter um Governo que não está submetido aos grandes interesses e que actua de acordo com o interesse nacional" Emídio Rangel na Focus de 27/09/2006.

Que sorte!!!!

Pois que outra coisa pode fazer um governo?

Pelo visto, em Portugal pode fazer tudo!

A nossa sorte é haver agora um Governo que actua de acordo com o interesse nacional!

FINALMENTE!!!!!!!!!!!

Seja lá isso o que for...

É de ir às lágrimas.

...uns de riso.

...outros de choro.

Naturalmente.

quarta-feira, setembro 27, 2006

E O SILÊNCIO...

Eu compreendo.
Também me acontece.
Quantas vezes, perante certas realidades, eu fico com a voz embargada...
E o silêncio é a minha escapatória.
Mas não a minha resposta.

segunda-feira, setembro 25, 2006

AINDA AS FÉRIAS NHEMMM... MESMO FÉRIAS!!!

Espantava-se uma querida amiga um destes dias:

- O Quê?! Ora, repete lá!

- É como te digo!

- Mas tu és juiz, caneco! Ainda por cima é uma actividade a tempo inteiro e extremamente esgotante...

- Sim, eu bem o sei... mas sou juiz apenas na vertente da prestação de trabalho, mas já não na vertente remuneratória onde sou considerado apenas estagiário, apesar de ter terminado o respectivo estágio em 31 de Dezembro de 2003 (três)...

- Ora diz lá outra vez!!!...

- É como te disse: Nos últimos dois anos, férias para mim é simplesmente não trabalhar e ponto final!

- Tu vais rebentar... ai vais, vais!!!

SE ME TIVESSEM DITO QUE IRIA SER ASSIM...

Hoje é Segunda-feira, dia 25 de Setembro de 2006.

Ainda hoje, cerca de 80 juízes da jurisdição administrativa e fiscal são remunerados pelo índice de base (índice 100) correspondente ao vencimento de juíz-estagiário.

Todavia, este grupo de juízes:
- que sofre a responsabilidade de exercer as suas funções em matéria completamente nova;
- que viabilizou a implementação efectiva do novo contencioso administrativo;
- que julga matéria que anteriormente era da competência do Supremo Tribunal Administrativo;
- que desde o primeiro dia julga todo o tipo de acções sem qualquer limite ou condição, pois que ocupam lugares (todos estes juízes!) do quadro de tribunais de círculo;

este grupo de juízes continua com o estatuto remuneratório de juiz estagiário.

Extraordinário é o facto de terem terminado o seu estágio no dia 31 de Dezembro de 2003 (dois mil e três!).

Extraordinário é o facto de terem sido nomeados juízes efectivos no dia 1 de Janeiro de 2004 (dois e quatro!)

Os tribunais da jurisdição administrativa julgam do cumprimento pela Administração das normas e princípios jurídicos que a vinculam.

E ao mesmo tempo que julgam a Administração na apontada vertente, são gato-sapato nas suas mãos... são tratados como farrapo inútil... como um fardo... um verbo de encher... como carne para canhão...

Sim, sim, acções judiciais em tribunal também as intentámos.

Como todos os outros, obviamente e como não podia deixar de ser, também esperamos (melhor sentados, para não nos doerem os pés de tanta espera).

A República Portuguesa é um Estado de direito.

Democrático.

Diz a Constituição!

Mas alguém duvida???

Eu que saiba!!!

ENTÃO CALA-TE!!!!

Alguém duvida que o Estado Português é uma pessoa de bem???
Eu que saiba!!!
Então onde é que está o problema?
Como disse???
As pessoas???
Sim, sim, claro! Nas pessoas!!
Hitler, Staline, Mussolini, Franco ou mesmo o caseirinho Salazar foram pessoas determinantes de um certo Estado e de um certo estado de coisas.
Sim, sim, acho que sim, mais do que a Constituição e as leis, as pessoas são determinantes.
Não é por acaso, certamente, que a Constituição de 33 era e é considerada uma Constituição semântica (qualquer manual de ciência política no-lo diz).
Ninguém fala disto, ou melhor ninguém quer falar disto.
Mas eu formulo, ainda assim, a questão: A Constituição de 76 não apresenta já, em elevado grau e variadas áreas, sinais de transformação numa Constituição semântica?
Ou será que ninguém utiliza o serviço nacional de saúde?
Ou será que ninguém utiliza o sistema público de ensino?
Como disse??
Ah! Sim!
Isso só vale para os que pagam impostos... Pois!
E de entre esses devem ainda excluir-se os do tacho... Claro!
...desculpem lá... tinha-me esquecido desses promenores...
Estado.
De Direito.
Democrático.
Soa bem.
Somos mesmo modernos, evoluídos, civilizados.
Há é gente que nunca está contente com o que tem.
É uma cambada é o que é!
Está explicado o mistério...

sexta-feira, setembro 15, 2006

CHIHUAHUA

Já me cansam os seus escritos de denunciada encomenda (ou de prometida comenda!).
Com o devido respeito, aparenta semelhanças comportamentais a um chihuahua atiçado por um qualquer ressabiado travestido de maioria absoluta.

E nem sequer é vital!
Já foi.
Para mim, pelo menos.
Quando na minha ingenuidade laparosa (ainda hoje se faz sentir, quantas vezes! maldito idealismo!) eu acreditava na pureza dos santos... da academia e na sua castreja verticalidade.

E também não é, sei lá, por exemplo uma moreira, pois que já nenhum fruto dali procede, de tão espinhados ramos.

A esterilidade vai ocupando o lugar da verve científica.
Resta o cãozinho pela trela de um ressabiado.
Aparentando um chihuahua, ninguém verdadeiramente mostra receio daqueles dentes pequeninos.

Mas o seu ladrar insistente mostra-se tão estridente e irritante quanto a sua irrelevância.
É o tipo de cão capaz de morder a mão que o alimentou.
Assim será, especialmente quando o dono ressabiado entender que ele já não merece a comida que come.
Quando entender que o deve mandar abater em favor de um doberman de dentes maiores e mais afiados.

Enfim, isto digo eu... não mais do que idiossincrasias de quem vai de carroça na caravana que passa...

quarta-feira, setembro 13, 2006

NADA A DECLARAR

Desculpem lá, caros amigos, mas continuo a entender que quando nada há para dizer, mais vale não dizer nada.
...e ainda assim, quando se pensa ter algo a dizer, quantas vezes nada se diz!

Haverá, certamente, muito para dizer.
Tanto, que nem sei por onde começar.
Tanto, que se me embarga a escolha.

Outras vezes, pese embora o muito que há para dizer, afigura-se estar tudo dito.
Noutras ainda, é o cansaço da repetição.
Sim, porque no fundo, no fundo, andamos todos a dizer as mesmas coisas, todos os dias.

Ainda assim, diz-se, e bem, que o silêncio é de ouro.
Este silêncio.
Não o silêncio da conformação e da desistência (seja de que natureza for!).

Num blog, afigura-se que o silêncio pode induzir uma percepção de desistência, de abandono, de desinteresse.
Pode ser.
No caso, não é.

Desistência, abandono ou desinteresse será quando expressamente dito ser.

No mais, é apenas ausência de escrita.
É silêncio.
Que pode até ser de ouro.

Gratificante, sem dúvida, é perceber o interesse dos caríssimos leitores.
Obrigado.

quinta-feira, agosto 31, 2006

NOVA CORRIDA NOVA VIAGEM!

Das entranhas do cavalo de ferro já se sente o calor da fornalha.
E a minha cara a afoguear-se com o reavivar do coque.
Chego-lhe umas pazadas de carvão.
Ora toma lá, pançudo dum catano, aquece a malvada da caldeira que amanhã já marchas por esses tribunais afora, papando processos logo ao pequeno almoço!

Tuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii................

tchuk tchuk tchuk tchuk tchuk tchuk tchuk tchuk tchuk

Tuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...................

quarta-feira, agosto 23, 2006

FÉRIAS, MESMO MESMO FÉRIAS!!!*

- Ouve lá, sabes onde é que há férias mesmo férias; férias nhemmmnn... mesmo férias-férias?
Aquelas férias tão férias que tu olhas para elas e dizes "Epá estas férias são mesmo férias!"?
Férias que são tão férias que até chateia de tão férias que são?
Porque queres fazer férias e nem consegues deixar de as fazer porque são férias mesmo férias, as marotas?
Sabes onde é que as há?
SABES?

Mnistro da jestiça: - sei... (shuif, shuif...)

- Então, CALA-TE!!!!


(* matriz do Gato Fedorento sobre chamadas telefónicas grátis)

segunda-feira, agosto 21, 2006

FÉRIAS, MESMO FÉRIAS!

Nunca pensei poder vir a concluir isto:
- Que bem fez o Ministro da Justiça ao encurtar o período das férias judiciais de verão!
-Oh! Que ricas férias-férias!!!
- Keep it that way, Minister! Oh, please, please, please, PLEASE!

domingo, agosto 13, 2006

RECANTOS DA MINHA MEMÓRIA - V - AS MENINAS DO CALEMA

Vindo do Tamariz, contornava-se o paredão da baía e dava-se de caras com a Capitania do Porto.
O Lobito era, e é, uma cidade portuária, com a importância estratégica que lhe era conferida pelo terminal da linha do caminho de ferro de Benguela.
A Capitania não ficava longe da peixaria do Zé Maria, junto da qual todos nós morávamos.
Em frente da Capitania havia uma velha vivenda de estilo colonial, com uma cave de janelas ao nível do chão, por debaixo da varanda larga que a circundava, e um telhado de telha cerâmica, vermelha.
Os pilaretes, finos, que suportavam o telheiro da varanda, bem como o varandim, eram pintados de branco.
Era ali que moravam as "putas" do Calema (como eram conhecidas em certos meios).
Era a sua casa, reservada apenas a habitação.
O Calema era uma boîte, um club nocturno, na zona das docas, com espectáculo de strip tease e afins que, para além dos néons vermelhos, costumava anunciar os seus espectáculos com cartazes de cores brilhantes colocados de um e outro lado da porta.
Isto sabiamos nós. E nada mais.

Em certas manhãs víamos chegar as moças, depois do trabalho nocturno, lindas, mulheres pintadas, altas, de pernas altas !
Vinham numa carrinha, um furgão VW conduzido por um mulato mal encarado.
Ali sentados no friso do muro da Capitania era como se não fosse nada connosco, mas a verdade é que ninguém perdia pitada!
Trabalhavam por turnos, pelo que havia sempre gente naquela casa durante o dia como também durante a noite.
Acicatados pelas hormonas dos 12 anos, os risos que à noite se furtavam pelas janelas da vivenda povoavam a nossa imaginação e transformavam-se em chamamentos irresistíveis.
A curiosidade tomou conta de nós, de cada um do nosso grupo. Dos rapazes, claro. A participação das meninas do grupo era confinada a certas andanças. Noutras, como esta, eram "coisas de homens"!

- Ouvi dizer que elas tomam banho, nuas, ali na cave... - Confidenciou o Nicolau com os olhitos a brilhar.
- Claro que tomam banho nuas! Tomavam banho vestidas?
- Não é isso, pá! é que tão mesmo nuas ali, tão ali! Nuas!
- Nuas nuinhas?
- Nuinhas! Juro!
- Chiiiçaaa!!
- Ena pá!!!
- E são lindas! Com mamocas e tudo, ali... eu já vi!
- Mentiroso!
- Viste nada! Viste onde? Hem? Onde? Onde??
- Vi, vi juro que vi... uma vez espreitei pela janela e vi uma a vestir-se... tava nua... a vestir-se... e eu vi!
- Oh! Ena pá!
- Pela Janela? - Interessou-se o Alexandre.
- Yah! Pela Janela! A janela da cave, ao pé da bananeira...
O silêncio denunciava a velocidade da cabeça de cada um: A cem à hora.
- A que horas é que chegam as do dia?
- Chegam já de noite... praí às... 10 horas...
- ... e vão tomar banho...
- ... e já não há sol...
- Pois não, mas há dois candeeiros na rua mesmo em frente da casa... não dá, pá, vê-se tudo...
- Vê-se tudo, nada! Estão lá as bananeiras e podemos esconder-nos lá.
- Tá bem, tá bem, mas o problema é chegar até lá... como é que se atravessa o jardim sem ninguém nos ver??
- Já sei!
- Já sabes? O quê?
- Já sei como entrar!

O plano era bom. Iniciava-se com o suborno - um belo osso - do boxer da casa da pitanga, a passagem pelo quintal da Srª Felismina - cuidado com as galinhas e com o ouvido da senhora, que era fino! - e continuava pelo muro velho, um muro de adobe que terminava na parede mais recuada da casa do Calema.
Rastejar até às bananeiras, em frente das janelas da cave não oferecia qualquer problema.
Se bem o pensámos, melhor o executámos!
Às 10 da noite, a cambada do costume - eu, o Alexandre, o Nicolau, o Fanadinho, o Alforreca, o Tito, o Gramaxo - esgueirámo-nos pelos muros e pelos quintais, descemos ao jardim da casa do Calema e instalámo-nos entre as bananeiras.
Na casa, rumores vagos. As janelas da cave, rasgadas, não se mostravam iluminadas.
- Viemos cedo de mais...
- Sssshhhh... tão a chegar, tão a chegar!
Ouvia-se a algaraviada que as moças faziam lá à frente, acabadas de sair da carrinha, os risinhos, bater de portas, conversas...
Chegámo-nos à frente e espreitámos pela janela. Nada!
- Vamos esperar, malta! É aqui que elas tomam banho. Eu sei que é aqui! Afirmava peremptório o Nicolau.
Os corações batiam desalmadamente no peito.
Era demasiada excitação. Pelo proibido, pelo clandestino, pela intromissão desautorizada, pelo medo, pela expectativa dos corpos nús...
Nisto, alguém acendeu a luz e a janela ficou toda iluminada.
A metade inferior da janela era de vidro fosco, mas a metade superior era de vidro transparente. Sem cortinas.
Era autêntico cinescope 70mm.
Deitados na relva, pois as janelas estavam ao nível do chão, bastava levantar a cabeça acima do vidro fosco.
Lá vinham elas!
- Olha ! Olha!
- Ssssshhhhh pá pouco barulho... ena pá!
- Chiiiiii...

- Ora, o que é que se passa aqui?
O nosso coração, de cada um de nós, deu um pulo de aflição!
- Não têm vergonha? O que se passa aqui?! Hem?
Ficámos de costas, apoiados nos cotovelos, com ar aparvalhado a olhar para... o Padre Júlio!
- Padre Júlio!?!!
- Que vergonha!! Rapazes educados, de boas famílias, ai, ai, ai ,ai ,ai!!
- Padre Júlio... Não foi nada... não é nada...
- É que nós ouvimos um barulho...
- E o gato correu para aqui e nós...
- Chega de mentiras! Amanhã de manhã quero-os a todos na sacristia! Todos! Ouviram?
- Sim senhor... sim senhor Padre Júlio...
Cabisbaixos, saimos dali a correr...
Mas uma coisa é certa: Aquelas mulheraças estiveram mesmo ali à nossa frente. Nuínhas de todo!
YYuuuupppiiiiiiiiii! Ríamos nós em correria pela rua baixo...

Na manhã seguinte lá fomos à sacristia.
Trinta Avé-Marias? Trinta Padre-Nossos?
Apresentámo-nos sem grandes apreensões, pois o Padre Júlio era cá dos nossos, quer dizer, não era do tipo "rato-de-sacristia-moralista-da-treta". Era alguém em quem sempre confiáramos, em quem se podia confiar.

Era um amigo.
- Vamos lá encontrar uma saída airosa, rapazes!
O Padre Júlio tinha uma incumbência para todos nós, já se adivinhava.
- Rapazes, é coisa que não se faz, espreitar a intimidade dos outros. Foi um erro. E os erros pagam-se! E o vosso vai ser pago com trabalho.
- Trabalho!? Oh, não! - Todos nos lamentámos, vendo as férias grandes a voar...
- Trabalho! Ora digam-me lá: Afinal, o que foram lá fazer?
- Bem, nós fomos... - Hesitou o Nicolau - fomos... ver as meninas...
- Foram ver as meninas!? Muito bem! Sabem quem são aquelas meninas? O que fazem?
- Sim, trabalham no Calema... são... são... trabalham no Calema... - embatucou o Gramaxo.
- É verdade. Trabalham. No Calema. Eu não posso aprovar o trabalho... que elas fazem no Calema. Mas continuam a ser pessoas. Como tu, ou tu, ou tu, ou eu, pessoas como nós! Merecem não só o nosso respeito como também a nossa solidariedade.
Que palavrão! O Padre Júlio começava a falar caro. Nós, em sentido!
- Aquelas meninas - continuou - são quase todas analfabetas.
- Analfabetas? - Estranhou o Alforreca.
- Analfabetas Manelinho, analfabetas! Se calhar é por isso que trabalham... no Calema, percebes?
- Não sabem nada? Nem ler nem escrever? - Perguntei.
- Algumas sabem assinar; 'fazem' o nome mal e porcamente e nada mais.
- Coitadas - Condoeu-se o Fanadinho.
- Pois é, Por isso, pensei num trabalho para vós. Tenho a certeza de que vai agradar-vos, rapazes!
- O que é? O que é?
- Vão dar aulas às meninas do Calema! Vão ensiná-las a ler e a escrever. Aqui no salão paroquial.
Entreolhámo-nos, algo confusos.
Nós, pingentes de 12 e 13 anos? Dar aulas a adultos?
Todavia, sempre eram as meninas do Calema!
- Já falei com elas. Eu acompanho-vos no início de cada aula e depois vocês continuam a tarefa. Dos vossos pais trato eu. Está bem?
A estupefação inicial havia passado e dera lugar a uma euforia ingénua tanto quanto maliciosa, mitigada por um sentimento de responsabilidade crescente à medida que a tarefa nos ía tomando conta da razão.

O Padre Júlio tinha em curso projectos sociais, também de alfabetização, e numa sociedade de mente aberta como aquela as meninas do Calema encaixavam ali perfeitamente, sem rebuços hipócritas nem levantamento de beatas histéricas.
Saímos dali de peito inchado, orgulhosos, agradecidos pela confiança que o Padre Júlio em nós havia depositado.


Pois foi um verão memorável!
As meninas do Calema não só eram alunas aplicadas como também eram grandes compinchas, com a meninice à flor da pele, ombro a ombro com a nossa própria, capazes de carinho e afectos fraternais, quando não mesmo maternais, que ainda hoje relembro com grande emoção.

Que grandes férias!

Coisa que nunca percebemos, e ainda hoje está por saber, era o que fazia ali o Padre Júlio, naquela noite...

sexta-feira, agosto 11, 2006

RECANTOS DA MINHA MEMÓRIA - IV

A peixaria do Zé Maria ficava mesmo em frente.
Chamavam-lhe peixaria, mas na verdade era uma fabriqueta de transformação e exportação de marisco e pescado variado.
Tinha um cais próprio, onde atracavam as traineiras e que nos servia de parque infantil, piscina, reino dos piratas, fortaleza, eu sei lá...
O Zé Maria era um porreiraço, muito amigo do meu pai, e de quando em vez lá vinha uma santola ou mesmo uma lagosta acabadinha de cozer, para a miudagem.
O cais ficava na zona da baía, águas calmas, perturbadas apenas pela passagem dos navios, das lanchas ou das traineiras.
Um bote ou uma chata não tinham segredos para nós.
Qualquer um de nós gingava uma chata com a destreza de um autêntico marinheiro.
Sabiamos fazer um nó de porco para a amarração e até mesmo um lais-de-guia, nó nada fácil de alcançar na perfeição.
Mas as brincadeiras com os barquitos alheios não preenchia já a nossa imaginação.
Verdadeiros piratas têm verdadeiros navios-pirata sob o seu domínio!
Verdadeiros piratas têm o seu próprio "navio".
Sentámo-nos em discussão.
A questão era: Onde desencantar um "navio" pirata?
Dos bolsos e dos mealheiros sairam as moeditas, mas todas juntas não chegavam para três braças de cabo, quanto mais para um botezito, mesmo roto...
- E se construíssemos um "navio"?
O Alexandre saltou como se tivesse uma mola tensa debaixo do traseiro!
- É isso!!! É isso!!! Vamos fazer um barco!!!
- Um navio, pá, diz-se um navio - insistiu o Nicolau - os piratas não têm barcos, têm navios, já viste se tivessem barcos ninguém os respeitava, por isso é navi...
- Pôrra! Tá bem, tá bem... vamos fazer um navio!
- E como, com quê?
Olhámos ali para o lado e a pilha de caixas de madeira riu-se para nós.
Levantámo-nos e cercámos o monte de caixas, olhando-as pela primeira vez!
Ora, acontece que o Zé Maria exportava o seu pescado em caixas de madeira, caixas essas que eram montadas ali na carpintaria da fabriqueta.
A amizade entre o Zé Maria e o meu pai valeu-me a incumbência da nobre tarefa de tentar reverter para a nossa causa uma esperada nega no pedido de utilização da madeira das caixas. Da madeira nova, evidentemente.
Mas o Zé Maria era uma alma única, certamente tivera uma infância feliz e creio ter vislumbrado uma enorme pena por ter crescido e não poder agora acompanhar-nos na criação do navio pirata, quando me respondeu:
- Um navio pirata!? Ah ah ah ah!! Pago pra ver!!! Que grande idéia! Ok, rapaziada. Vão ter com o Muxico e ele que vos dê as tábuas e os pregos e o que for preciso. Quero ver esse navio! Ah ah ah ah...
Do Muxico obtivemos não só os materiais, as ferramentas, como também os rudimentos da fabricação da coisa.
Era preciso uma quilha, fazer um cavername e depois recobrir tudo com as tábuas.
Utilizamos os fundos do quintal, uma zona reservada, pois não queríamos interferências de outras engenharias.
Aquilo foi coisa para uma semana.
Uma semana febril de corta e prega e arranca e torna a pregar e torna a cortar," é assim", "não, não, é assado", "segura aqui", "vai agora! Força!"...
A coisa começou a tomar forma e já parecia um botezito, de fundo achatado.
Mas não flutuava ainda. Era preciso calafetá-lo e impermeabilizá-lo.
Da necessidade ao Macué foi um passo.
O Macué era o encarregado da manutenção das traineiras e foi ele que nos deu uma lata de pez e um rolo de estopa de linho.
O know how tinhamos nós, pelas horas de obervação dos artífices na calafetação das embarcações.
Vá de calafetar.
O trabalho ficou pronto quando o pez se acabou, metade dele agarrado às nossas pernas, aos calções, ao cabelo (tramado tirar aquilo do cabelo, "agora só com azeite", dizia a minha mãe tentando perceber onde terminava o meu cabelo preto retinto e começava o pez da mesma cor).
Faltava apenas o toque final: Uma pintura. Um "navio" de piratas que se preze é pintado a preceito.
Na secção das tintas o Mané convenceu-nos de que aquela tinta de cor grená era a melhor.
Torcemos um pouco o nariz... grená... mas era a melhor! e um pirata deve ter o melhor.
O barquito lá ficou todo pintado de grená. Bonito o danado!
Um velho remo foi transformado num belo mastro.
Já os sacos que serviam ao transporte do milho forneceram o pano para a vela latina, toda cosidinha à mão com agulha albardeira.
Comprámos uma pequena bandeira nacional, para a içar no mastro do "navio".
O toque final era a bandeira dos piratas. Foi desenhada e pintada a preceito, caveira e ossos cruzados, brancos sobre fundo negro. Um espanto!

Para evitar aflições e vexamos inúteis, no silêncio de uma bela madrugada de noite mal dormida pela espera, suámos as estopinhas mas metemos o malvado à água.
Flutuava.
Direitinho!

Aí pelas 9 da manhã estava eu, o Nicolau e o Alexandre a navegar a pleno pano, a não mais de 200 metros do cais.
O Fanadinho, o Alforreca, o Tito, o Gramaxo, a Lolita e a Inês (sim, sim, havia meninas, pois então!) estavam no cais, à espera de vez. Sim, porque o "navio" era de calado pequeno e mais de três piratas a bordo... afundavam-no!

Nisto, vem de lá o Zé Maria pelo cais, a gesticular, a gesticular...
A rapaziada à sua volta pulava, gritava, apontava... e nós espantados!
Não conseguíamos ouvir nada do que gritavam.
O Zé Maria gesticulava, fazendo-nos sinal para atracar, para regressar ao cais.
A bombordo, passou uma lancha e o mestre apitou, veio à amurada e também nos gritou algo que se perdeu no barulho do motor, apontando o nosso "veleiro".
Uma inquiteção tomou conta de nós.
O Zé Maria, no cais, continuava a chamar-nos a terra, ao cais.
- Nicolau! - era o Nicolau que ía ao leme - mete ao cais que alguma coisa não está bem...
- Fogo pá! O que será?!
A sensação de felicidade de navegar, de flutuar naquela casca de noz, feita pelas nossas mãos, deu lugar à apreensão.
Metemos direitinho ao cais, o "navio" a todo o pano, impecável, rasgando a água azul com aquela sua cor grená, orgulhosa, presente, personalizada.
À medida que nos aproximávamos a malta fazia uma algazarra tal que não conseguiamos ouvir o Zé Maria.
- Encosta, encosta! Olha o cabo!
Passado o cabo, preso o "navio", subimos ao cais pelas escaditas carcomidas e demos de caras com o Zé Maria.
- Ah! meus malandros...
- O que foi? O que foi? Sô Zé Maria, nós não...
- Ah! Cambada de malandros!!! Ih ih ih ih - Ria-se ele e nós sem percebermos patavina...
- Oh meus malandros, querem ir todos presos?!
- Mas nós não fizemos nada, nós...

- Então vocês não sabem que a PIDE anda por aí? que está em todo o lado?
- PIDE?!
- Chiiuu... shshsh... baixinho... a PIDE , sim.
- Mas nós não fizemos nada...
- Ah ah ah ah ih ihih - ria-se ele entre complacente e zangado e nós sem nada perceber.
- Olhem, para a vossa bandeira. Olhem!
- O que é que tem?
- A bandeira nacional, rapazes, a bandeira nacional!
- É novinha em folha, foi o Nicolau que a foi comprar e tudo...
- Pois é... mas está de pernas para o ar!!! De pernas para o ar, caraças!!!
- (!!!)
- Se a PIDE vê a bandeira de pernas para o ar vamos todos presos! E fecham-me a peixaria, rapazes!

(Este pequeno conto dedico-o ao meu amigo Alexandre, onde quer que ele se encontre; amigo que eu, desde então, não mais voltei a ver)

quarta-feira, agosto 09, 2006

RECANTOS DA MINHA MEMÓRIA - III

Depois da escola, era sagrado: Ir à fruta!
Ela era mangas, pitangas, goiabas, anonas, fruta-pinha, papaia, mamão, nochas, maboques, mirangolos...
Naquele dia haviamos combinado ir à fruta-pinha, uma espécie de anona, de casca mais rugosa e sabor intenso.
Sabiamos onde a encontrar.
Havia que subir o rio, pela margem já que era verão e o caudal, grosso, não permitia veleidades.
Mas, para pernas de 9 anos, isso não era problema.
Fui eu, o Chinvoco, o Massusse e o Piruleta.

Descalços, calções e tronco nú como impunha o supremo gozo da vida simples, das vidas simples. "Cuidado com as cobras!", era o medo maior!
Claro que os varanos faziam a sua aparição, mas aquele arremedo de jacaré "kandengue" não impressionava ninguém.
Fugia a quatro patas com dois berros e umas pedradas.
O calor era insuportável naquele dia.
Pela sombra das mulembas, lá fomos de ideia fisgada na fruta-pinha.
Nem os mirangolos nos detiveram e olhem que já os havia maduros.
A água bebia-se nos remansos do rio, ali onde ela parecia brotar da terra, límpida e fresca.
Já se avistavam as anoneiras.
O Chinvoco era o mais velho e mais experiente, "Ispera aqui, pá, qui vô vere". E foi.
Ficámos. Em silêncio.
Entretanto, fomos procurando as pedras mais indicadas à nobre tarefa da guerra da fruta-pinha. Cada um enfiou nos bolsos dos calções tantas quantas lá cabiam.
Fundamental era também um pau, um bom pau, verde, que não se partisse logo à primeira cacetada no chão.
"Pôra, pá, sêrá qui os gajo tão lá?" afligia-se o Massusse espreitando a chegada do Chinvoco.

"Os gajo tão lá, pá!".
E o Chinvoco traçou logo ali a táctica de assalto e controle do território.
"Tu vais no tambor".
O tambor era uma velha árvore tombada, oca do caruncho, peça fundamental na guerra que se avizinhava.
"Piruleta, tu ficas anqui e anqui que ninguém passa, pá!".
"Massusse, vais na borda do rio mas não passa pra cima. Pra cima é onde os gajo vão sair, pá!".
"Eu vou por anqui e quando grito todos avança!"
Com as missões definidas, cada um de nós avançou lenta e cuidadosamente.
Instalei-me no tambor, o pau a jeito, e esperei o grito do Chinvoco.

Ouvia-se a restolhada que os gajos faziam, os seus gritinhos, a sua chiadeira.
Pé-ante-pé, o Chinvoco aproximou-se.
Houve um silêncio súbito. Os gajos perceberam!
"ATACAAAAA!!!!" Era o Chinvoco no comando!
O tambor urrava, debaixo da malha de porrada que eu lhe afinfava.
Numa chinfrineira infernal, os paus batiam no chão e na folhagem com toda a força, a gritaria ombreava com o barulho da água em queda nos rochedos ali ao lado.
Os macacos, aos guinchos, fugiam em debandada geral.
Depois, os mais afoitos paravam, regressavam e, raios!, eram atiradores exímios!
Pedras, paus, fruta, tudo era utilizado como munição.
Mas nós estávamos precavidos: Os bolsos cheios de pedras eram paióis a debitar munições e a pedrada fervia em direcção à macacada.
O toque final, que os levava para lá do rio, era uma correria, todos em conjunto, como se de um só corpo se tratasse, de braços erguidos armados de varapaus, e uma gritaria medonha qual dragão doido , furibundo, ali parido do nada para assombrar as pobres criaturas parentais.

Depois era a partilha da vitória, uma redundância empolada, uma recreação do vivido, tudo numa algaraviada de risos e cacofonias, de encenações miméticas, numa comunhão de vida e vivência.

Liberto o pomar, havia que tomar conta do reino.
Para não haver dúvidas, cada um ficava com a sua "despensa" de fruta-pinha.
Depois, era comer até mais não.

Que bem sabia uma fruta assim conquistada!

segunda-feira, agosto 07, 2006

RECANTOS DA MINHA MEMÓRIA - II

É Domingo e o sol já vai alto.
No Verão é importante começar cedo.
Procuro a fisga, que serve apenas para apontar aos cacos de resina e nunca aos pássaros.
Tenho inúmeras coisas para fazer.
Meto pelo carreiro em direcção ao vale, atravesso o riacho.
Cantam rouxinóis e cigarras.
Um gaio espantado grasna, arrastando no coro um melro sonolento.
Atravesso a seara de centeio, com cuidado, "não se pisa o pão".

Os caminhos das cabras levam-me ao sopé da serra.
É hora de subir.
Os pés, empoeirados nas sandálias pequenitas, ameaçam cansaço e os calções deixam as pernas à mostra, um petisco para os tojos e os carrascos.

Ali está ele: O penedo amarelo!
Subo a penedia, a pulso, passo a passo, pedra a pedra.
Agarro-me ao alecrim e à esteva.
Procuro a velha fenda que me há-de levar aos ninhos das gralhas do penedo amarelo.
Num derradeiro esforço, ergo-me e espreito.
Dois enormes ninhos, quais feixes de lenha, mesmo à minha frente.
Os pais não estão. Estão os filhotes.
Ergo-me um pouco mais e fico ali a contemplar aqueles quatro seres, feios como um raio que os parta!
Mas cuja contemplação me fascina e me delicia.
É tudo o que desejo: Visitá-los de vez em quando e ver a sua evolução. Ver como ganham penas, como se vestem para o baile do primeiro voo.
Um belo dia chego lá e... são apenas memória.
Já são livres!
O grito da gralha devolve-me à realidade.
Ala, que se faz tarde!
Desço a penedia e percorro os carreiros do monte, que me conhecem muito bem.
Vou agora pelos cortiços, os que enxamearam.
Fico ali, perdido nas idas e nas vindas das abelhas, as que se apressam a sair e as que se afadigam a entrar, com as pernadas cheias de polen.
O odor de uma colmeia é absolutamente único: Cheira a óleos, a mel, a terra, cheira aos frutos doces, a todos os frutos da terra.
O sol subiu bastante, o calor aperta.
É altura de me refrescar.
Dirijo-me para o rio. Na verdade é um ribeiro, mas de água sempre fresca e com "nascentes" onde as mulheres enchem as cantaras que depois levam para a ceifa.
Por entre caniços e salgueiros, abro caminho até à água.
Meto lá os pés, com sandálias e tudo. Oh, como eles agradecem.
Caminhando pelo leito do ribeiro, onde ele é baixo, pela margem onde ele afunda, procuro a pequena represa, ao fundo do milharal do Ti' Zé Barraca.
Subo ao milharal, enfio-me pelas regueiras do milho, que faz dois ou três de mim, e lá à frente viro à direita.
Sei que é por ali. Procuro.
Ali está!
O mais belo abrunheiro da zona.
Carregadinho de abrunhos maduros.
Levanto a camisa e levo aos dentes uma das pontas, deixando uma espécie de bolsa suspensa.
Depois é só enchê-la de abrunhos sumarentos.
Volto ao ribeiro e coloco os abrunhos dentro da água fresca.
Dispo-me e enfio-me dentro de água também.
E ali fico.

Primeiro visitam-se os amigos.
A loca grande, dos barbos, está cheia.
Sei onde moram as rãs e deixo-as em paz para que me presenteiem com o seu coaxar pachorrento.
Mergulho, dou umas braçadas e de quando em vez vão uns abrunhos.
Umas braçadas, uma barrigada de água fresca e uns abrunhos!

As rãs coaxam e há um passarito em doce chilreio, a coberto da sombra verde e fresca.
Que bela é a vida!

sábado, agosto 05, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - A MÃO INVISÍVEL

- Venham! Depressa! Depressa!
- Quem é? Quem grita?
- É o Tonito da Felismina... vem prali a gritar o danado...
- Corram! Depressa! Depressa!
- O que foi rapaz? Que gritaria é essa? Inda o sol mal salevantou e já tu estás nisto...?
- Foi... foi...
- Respira, rapaz! Respira! Calma!
- Foi.. é o Bonifácio!
- O Bonifácio!? O que tem o Bonifácio?
- Tá morto!
- Helá! Tá morto?
- Mas ouve lá, meu menino, morto... morto? Mêmo morto?
- Morto morridinho... todo morto... coitado...
- Mas onde? Quando? Morto? Tás bom da cabeça?
- Tá no cemitério! Morto! Eu vi! Eu vi!
- No cemitário!? Morto!?
- Bem... naé mal alembrado... no cemitério... morto... naé mal alembrado, nan senhor...
- Morto? Quem?
- O Bonifácio! Tá morto! No cemitério!
- Ah! Coitadito... Como foi?
- Atão e já tá no cemitério?!
- Não, não...
- Diz lá Tonito, como foi que...
- Nan sei Ti Barnabé, mas quele tá morto, tá! Eu vi-o!
- Mas atão, no cemitério... mas adonde?
- No jazigo dos Ferreirinhas!
- Ohh!!
- Helás!!
- No jazigo... como? Lá dentro?
- Lá dentro, Ti ' Policarpo!
- Nem quero acreditar...
- É verdade! Juro! Eu vi-o! Mortinho de todo! Ca cara de boca aberta, os olhos arremelgados...
- Os olhos arremelgados...?
- Sim, cuma cara de medo... Cá pra mim, ele morreu de susto!
- De susto? Tu nan tás bom da cabeça, Tonito!
- Tou, tou! Juro! Morreu de susto! Juro! Só pode ser! Juro! Venham lá ver, venham lá ver...
- Pode lá ser, rapaz!
- Juro! Morreu de susto, com o sobretudo pregado ao caixão!
- Qu sobretudo pregado ao caixão?! Ai que tu nan dizes coisa com coisa, rapaz...
- Juro, ele tá caído assim a modos que em direcção à porta, com aquela cara de medo e o sobretudo pregado ao caixão!
- O Bonifácio é um moço valente... tem lá medo dos mortos!!
- Não é ele que costuma fazer apostas de ir à meia-noite ao cemitério e coisas assim?
- É ele mêmo!
- Atão e agora morre de susto no cemitério? Nah!
- Olha, olha, vem ali o primo dele, o Sabino!
- Bom dia!
- Bom dia, Sabino.
- Atão isto é um comício, logo de manhã ou quê?!
- Não... ó Sabino... ouve lá... tu tens visto o teu primo Bonifácio?
- Vi, sim senhor. Inda onte tive cuele ali na tasca do Pulquério.
- Tens a certeza?
- Atão nan tenho?! Inté fizemos uma aposta!
- Uma aposta? É mêmo dele!
- Pois foi, apostamos quele nan era capaz de ir pregar um prego no caixão do Ferreirinha, à meia-noite!

sexta-feira, agosto 04, 2006

RECANTOS DA MINHA MEMÓRIA

A rua sinuosa e estreita, varrida pelo vento e pela chuva, endemoninhados.
As casas baixas, de telha vã, caliça desmaiada onde a pedra nua espreita, são o resguardo da espera.
Da espera dos dias melhores, dos dias das sementeiras e das colheitas.
Agora, nesta invernia, acolhem os sonhos de olhar perdido nas chamas da lareira.
Vai ficando escuro. Anoitece cedo no Inverno.
"Vá! Todos para casa; direitinhos a casa" dissera a professora.
Percorro a rua sinuosa e estreita.
Não se avista vivalma.
O vento redemoinha, silva, empurra-me, e uma chuva miudinha, fria, bate-me na cara.
Sinto-me parte daquele momento, dos elementos da natureza, agreste, agreste como eu, forte como eu - "olha que te constipas!" - Qual quê! Forte como eu, ensopado até aos ossos, sem frio nem calor, mas de peito cheio de vida.
A sacola ao ombro, cheia de livro e de caderno, mais o lápis, a ardósia e a caneta-de-tinta-permanente. Para as provas.
A importância de ter 7 anos.
A importância de 'andar na escola'.

Percorro a rua deserta.
Ali a meio, a tabuleta da taberna gira nos seus gonzos e bate contra a parede ao ritmo da ventania.
Espreito.
O tecto baixo de madeira enegrecida, o chão de terra batida, os barris alinhados por detrás do balcão comprido.
Pendurada do tecto uma lanterna a petróleo, de luz amarelenta, dolente, sem brilho.
Como a alma daqueles corpos ali encostados a bebericar a aguardente da dormência, a aguardente do engano, a aguardente da esperança.
Olham-me. Como a um fenómeno deveras estranho.
"Vai para casa, rapaz, que o diabo anda à solta esta noite...".

quinta-feira, agosto 03, 2006

E DE REPENTE, TUDO É TÃO SIMPLES...

É um daqueles fins de tarde sem história.
O silêncio de um ventinho, suave, cheiroso, aromatizado pelos óleos das estevas e do alecrim, suados, não pelo esforço, mas pelo calor do dia.
A montanha murmura, naquele seu linguarejar dolente, despenteando as urzes e o rosmaninho pela mão de uma rajada mais forte.
Lá no alto, uma águia diverte-se surfando as ondas de vento.
Apesar da brisa, as cigarras ainda exercitam a sua veia trovadora.
Há um coelhito, atrevido, que vai pulando ali para os lados da macieira.
Esperto!
Com a brisa, as maçãs caem e ele... bem, ele faz um banquete.
E uma paz enorme, enorme, invade-me.
Quedo-me pela contemplação.
A contemplação da natureza, não da natureza bucólica, mas da natureza rude, física, biológica, mineral.
É a contemplação da matéria, do cosmos.
É a compreensão da comunhão atómica, dos mesmíssimos átomos de que tudo e todos são feitos.
É o sentimento de partilha.
É a profunda noção de pertença, de ser parte integrante do universo.

sexta-feira, julho 28, 2006

A CAUSA DAS COUSAS

A mnistra da inducação visitou recentemente uma escola de... insucesso, pois queria colher uma sensibilidade prática sobre as razões de tal insucesso.
Em meio da visita, olhou para um miúdo, aliás com cara de sono e de fome, e perguntou-lhe:
- Ouve lá, meu menino, como te chamas?
- Abílio.
- E que idade tens tu?
- 9 anos...
- Ora aí está! Ora aí está!! Que vergonha! Pela tua idade já eu tinha, pelo menos, 10 anos!!

USE IT, STUPID!

Ao Albertino Carrapeta, doente da moleirinha, propôs o médico um transplante do cérebro.
- Ó sr. Albertino, você pode escolher entre dois cérebros que temos disponíveis: O cérebro de um arquitecto, que custa 10.000€ e o cérebro de um político, que custa 100.000€.
- Ó sr. dr., isso quer dizer que o cérebro do político é melhor do que o do arquitecto?
- Não exactamente, sr. Albertino. É que o cérebro do político tem muito pouco uso!

ITS THE CONSTITUTION, STUPID!

Como é sabido, a Constituição consagra o princípio da igualdade e o da não discriminação.
Por isso, protege todos os cidadãos, sejam eles alienados, alcoólicos, toxicodependentes ou deputados!

ITS A JOKE, STUPID!

Podem não gostar das minhas piadas, das minhas anedotas.
Mas o certo é que elas não magoam ninguém.

Mas já o governo, de cada vez que diz uma piada... é um decreto-lei.
E de cada vez que faz um decreto-lei ... é uma anedota!

INGRATIDÃO

Ali junto a S. Bento, uma senhora tropeçou e caiu.
O primero-mnistro, que passava por ali naquele momento, ajudou a senhora a levantar-se.
- Oh, muito obrigado. Como lhe posso agradecer?
- Ora, vote em mim nas próximas eleições!
- Desculpe... eu bati com a anca no chão e não com a cabeça!

O CRIADOR

Sócrates, o primeiro-mnistro português, foi ao psiquiatra.
- Dr., tenho um problema sério! Os portugueses já não gostam de mim, os meus adversários e até os meus aliados acham que eu sou um pretensioso. Têm dito até que eu me julgo Deus, que tudo quero, posso e mando!
- Ora muito bem caro Engrº Socras. Conte-me tudo, desde o princípio.
- Pois muito bem... ora ouça: No princípio eu criei o céu e a terra...

quinta-feira, julho 27, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - BAILE E MÁSCARA

- Reparei em si... toda a noite.
- Também o vi. Estava muito bem acompanhado...
- Ciúmes? Nem sequer nos conhecemos. Nem sequer dançámos...
- Não.não aqui, se bem me lembro.
- Não aqui? A sua figura é... deslumbrante... lembrar-me-ía, certamente. Apesar da máscara.
- Máscara? Ah, sim... sabe, apenas frequento bailes de máscaras. Como este...
- Pode... quer tirá-la?
- Não posso. Nem que o queira. Colou-se-me ao rosto. Definitivamente...
- Compreendo... sabe? também a minha. Colou-se-me ao rosto sem que eu desse por isso. Ainda pensei tentar removê-la, mas... já nem me dou ao trabalho.
- Tal como eu... casado?
- Sim. Quer dizer...celebrei um contrato de casamento.
- Um preciosismo? ou um verdadeiro negócio?
- Negócio. Evidentemente. Não tenho tempo a perder com as emoções.
- E o sexo, é bom?
- Tem dias. Tive problemas com as emoções. Por vezes não ficavam à porta.
- Também me aconteceu. Como resolveu?
- Simples: Afivelei esta máscara. Nunca mais tive problemas de consciência ou emocionais.... A propósito: A menina fode?
- Julguei que não mais perguntava...
- No fundo, sou tímido, sabe.
- Sei.
- Sabe?
- Meu querido... reconheci-te! Reconheci-te!
- Mas... Dália? Oh, minha querida e adorada esposa!

quarta-feira, julho 26, 2006

OS MAIORES!

Emanuel Torrentinha voltou a Portugal, depois de uma vida inteira de trabalho na América.
Encontrou um seu antigo amigo, o Ti' Anafrásio, e não se contendo, enalteceu as qualidades dos americanos, num linguarejar meio fifty-fifty:
- Na America we, nós, had, tivemos o George W. Bush, Bob Hope and Johnny Cash!
Respondeu-lhe o Ti' Anafrásio:
- Olhaquesta! E nós, in Portchugal, temos o Sócrates, no hope, and no cash!

PEQUENO PASSATEMPO

Para fazer sentido falta-lhe apenas a pontuação correcta:

"Um caçador tinha um cão
e a mãe do caçador
era também o pai do cão".

sábado, julho 22, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - MAJA DESNUDA

- Boa tarde. Sílvia, a sua modelo. "33 anos de idade" lembra-se? Falàmos pela net...
- Boa tarde. Claro que sim... Entre, entre.
- Hum... que atelier...! parece a gruta do Ali Bábá... Ui... e tantos quadros...! nús! Faz muitos nús...
- Um brique-a-braque isso sim. Atelier de pintor... é assim... milhões de objectos inúteis... mas cada um deles com uma história.
- Gosto. Mas é tão pessoal... sinto que estou a invadir... mesmo a devassar a sua... intimidade.
- Não deixa de ser assim, mas afinal vai posar para mim. Passa a fazer parte da minha intimidade. Bem-vinda!
- É fascinante, na realidade!
- Quando a contratei, pela Internet, disse-me que já havia posado anteriormente...
- Sim, é verdade. Posei já por três vezes... para grupos de senhoras. Um clube de pintoras amadoras.
- Alguém sabe que aqui veio?
- Como combinado, ninguém! Percebi a ideia: A surpresa será maior...
- Sente-se confortável com a ideia de posar para mim? Afinal, vai ter que se despir completamente, como sabe...
- Sim, ah ah, não há qualquer problema. Afinal, vai imortalizar-me!
- Literalmente! Muito bem. Podemos então começar, se estiver pronta. Pode despir-se. Tem ali um espaço para si, atrás daquele biombo...
- Não me lembro de ter visto qualquer exposição ou obra sua...
- ...
- Pronto. Cá estou! E agora?
- Humm...
- É essa a tela? É enorme! Já sei: tamanho natural!
- A Maja desnuda. Goya. Conhece?
- Devo confessar que não...
- Não faz mal. Mostro-lhe uma fotografia. Aqui está. É esta a pose que quero que adopte.
- E onde?
- Ali, naquele divã... tente esta posição... assim... o braço mais levantado... isso...
- Hum, macias estas almofadas... cetim...
- Faremos uma única sessão de uma hora, sem intervalos. Acha bem?
- Sim. Posso ir falando...?
- Claro que sim, aliás, gosto de ir falando com as minhas modelos...
- ... Faz muitos nús. Mulheres. De um realismo impressionante!
- São mulheres... imortais!
- Tal como eu dizia... vai imortalizar-me, ah ah ah!
- Sim... e bem merece... tem um corpo... perfeito... no momento perfeito...
- Pensei que os artistas olhavam para os seus modelos com outros olhos... olhos... estéticos! ih ih ih se é que isso existe...
- A beleza feminina interessa-me absolutamente. Captar cada pormenor, cada curva suave. Reconstruí-la na tela, dar-lhe vida...
- A avaliar pelas pinturas que tem nas paredes, já pintou bastantes mulheres. Não vende os quadros?
- Estes são de mulheres de 33 anos de idade. Todas elas. Como você. Não, estes não são para venda. Nenhum deles. São "as minhas mulheres". Sabe? são mesmo as minhas mulheres!
- Relaciona-se com as suas modelos? Desculpe perguntar... afinal, não tenho nada a ver com isso. É solteiro?
- Sou. Vivo com a minha mãe... não posso abandonar a minha mãe.
- Pois... Tem namorada! Típico dos pintores: solteiros... namorada... eh eh eh muitas namoradas...
- Não!! Quer dizer, não, não tenho namorada... não posso.... a minha mãezinha...
- 33 anos... porquê mulheres de 33 anos?
- É o momento ideal. É a altura certa. Aos 33 anos a mulher atinge o auge!
- Acha? Olhe que eu já sou assim desde os... 15 anitos!
- Não, não. Aos 33 anos a mulher atinge todo o seu explendor: toda a maturidade, toda a beleza!
- Mas porque não aos... 32, ou aos... 34?!
- Não! não! 33 anos... é o momento ideal para... para ser imortalizada! É uma afinidade cósmica.
- O que é que já está pintado? Posso ver?
- Não! Não pode! Não se mova daí. Foi esse o nosso contrato.
- Ui! Não, claro. Perguntei apenas por curiosidade.
- Tenho uma técnica: Inicio sempre a pintura pelos pés e vou pintando sucessivamente o resto do corpo, as pernas... e por aí acima... já lhe pintei os pés... delicados... com os dedinhos rosados... os tornozelos... as coxas... uma pele de pêssego... suave... perfumada...
- Sabe, acho que estou a ficar dormente. Sinto as pernas dormentes, até às coxas, precisamente. Como se as não tivesse!
- Não se mexa. Agora não se pode mexer. Depois fica bem. Vai ver que depois se vai sentir muito bem... relaxe...
- Não há problema. É uma dormência... doce. Não me magoa. Como eu disse, é uma sensação... como se não tivesse pernas!
- Tem, tem. E lindas, de pêssego...
- Obrigada. Passa os dias aqui? No seu atelier? Não costuma sair? Divertir-se?
- Não posso... a minha mãezinha precisa de atenção constante... este é o meu mundo, divirto-me aqui. Vivo aqui.
- É um pouco solitário, não?
- Não, nem por isso. Tenho a minha mãe, cuido dela, e... além disso tenho "as minhas mulheres"...
- Mas não são reais, são de tela e tinta!
- Não, não! São absolutamente reais! Posso acariciá-las, posso conversar com elas...
-Que estranho...
-Sim?
- Já não sinto o corpo até ao pescoço. Está dormente... mas não de me dói... simplesmente não o sinto... Nem os braços...
- Falta pouco... estou agora a retocar precisamente o pescoço.
-Mas... é que... não sinto o corpo. Não sinto mesmo. Como se não tivesse corpo... até ao pescoço...
- Tem corpo, sim. Um corpo lindo, imortalizado. Para sempre no seu máximo explendor. E só meu...
- Como...?
- Não se preocupe... não mova a cabeça. Estou agora a pintá-la.
- Não consigo. Nem que o queira não consigo movê-la. Talvez seja melhor interromper por momentos... desculpe.... creio que não me estou a sentir bem...
- Está quase, quase... estou a pintar os olhos. Não se assuste... vai deixar de ver...
- Por favor, não me consigo mexer... já não sinto a cabeça, não vejo... por favor ohh POR FAVOR... ajude-me!
- Só mais um pouquinho... deixo sempre a boca para último lugar...
- Socorro! SOCORRO! SOCORR.... ..
- Pronto! A boca sempre em último... gosto de conversar enquanto pinto...

Toc, toc...

- Ah! Entre mãezinha. terminei agora mesmo este quadro. Que acha?
- Pareceu-me ouvir alguém gritar... ia jurar que ouvi uma voz de mulher... a gritar...
- Outra vez, mãezinha! Como vê, estou completamente sozinho...

quinta-feira, julho 20, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - ENCONTROS

- Não tema. São apenas carangueijos. Olá. Boa noite.
- Boa noite... Não é exactamente temor... arrepiam-me estes bichinhos.
- Há piores. E depois, há coisas bem mais importantes... olhe! Este luar, por exemplo..
- Claro que sim. Sou uma tonta. Amedronto-me por vezes com insignificâncias...
- Bernardo. Bernardo Perofino... permite-me que a acompanhe?
- Bem... sim... vou até ao fim do pontão. Quer vir? Chamo-me Rita.
- Obrigado. Só não digo "até ao fim do mundo", porque seria uma vulgaridade... mas o prazer é meu. Ou também é meu.
- Não diz, mas... diz! Diz sem "querer" dizer...
- É verdade. Apanhou-me. Mas como dizer-lhe que apesar de ter acabado de a conhecer, sinto que... sinto uma enorme afinidade? Sem nome! Empatia?
- Vai ver, está apenas carente... uma fase menos boa...
- Não, não! Pelo contrário. Sinto-me bem com as coisas, com a natureza, com as pessoas. Estou de bem com o mundo!
- Também me sinto assim: de bem com a vida.
- E todavia...?
- É isso: "e todavia...?"... Falta-me algo... alguém...
- Também sinto isso, é o problema da partilha.
- Da partilha! Você é muito engraçado! "problema da partilha"! Mas, sabe...? é mesmo isso. Prefiro, no entanto, chamar-lhe comunhão...
- Ouça o marulhar das ondas contra a rocha... ouça...
- ...
- Imagine que estava aqui sozinha...
- Pois é: Não teria piada nenhuma.
- É a partilha... a comunhão que torna este momento... mágico.
- É a sintonia das emoções... é saber que num momento dois corações se emocionam em simultâneo...
- "Não teria piada nenhuma"... mas estava aqui sozinha!
- Sabe: Tenho um amigo meu, o xavier, que tem um poema que começa assim: "Estou no cais como quem parte / E olho o mar como quem fica /Bebo da lua a nostalgia / E deito ao vento o pensamento". Era um pouco assim que eu me sentia...
- É a natureza humana. De alguma forma a natureza é uma espécie de agente... aglutinador...

- Parece uma maldição!
- Por vezes é... mas acredito na capacidade de regeneração... na vontade... e... por que não dizê-lo? no amor!
- Não é um desiludido!? Isso é bom. Também não tenho ilusões. Não servem para nada. Prefiro... o concreto. Avaliar e... decidir.
- Como eu! Isso dá aos sentimentos a oportunidade de se manifestarem por inteiro e com verdade.
- Oops... desculpe, toquei-lhe na mão sem querer...
- Senti... mas o meu toque foi... por querer...

- Também o meu... menti... nem sei porquê... não há necessidade.
- Não, não há! Rita. Rita! R-i-t-a! Que nome lindo! Só podias ser Rita!
- Eu!? Porquê?! Bernardo! Ber-nar-do!
- Sei lá! Olho para ti e... desde sempre te conheço! Rita! Respiro esta maresia... e cheira-me a Rita! Olhos as estrelas e são todas Ritas Ritas RITAS!!
- Tonto! Bernardo, és tu! Estas ondas suaves, mas cheias, fortes... és tu! Estes rochedos... és tu! Os carangueijos...
- Rita! Não! Os carangueijos não, ah ah ah, os carangueijos não! Nem posso ser! Tu tens medo de carangueijos, lembras-te?
- Não, não tenho! Eu disse que me arrepiavam os carangueijos! E é verdade! Os caragueijos... és tu! Arrepias-me... de medo... de prazer... de emoção... de um sentimento forte, cá dentro do peito...
- De amor...?
- Porque não? De amor!!! Sim! De amor!

DIÁLOGOS DE VERÃO - O FORMULÁRIO

- 324!
- Sou eu. Agora sou eu. Finalmente.
- Sente-se, fachavore. Ora diga.
- Caalma. Sabe? estive atenta para ver se me tocava (ih ih ih) o seu atendimento...

- Pois. Ora diga. Nome?
- Epifânea. Epifânea Fagundes dos Pra-ze-res- e-Mo-rais.
-... e Morais. Já está. Idade?
- Idade? Idade! Idade não se pergunta a uma senhora; tome o meu bilhete de identidade.
- O bilhete dentidade? serve...
- Gosta do seu trabalho?
- Sim... claro... claro que sim! Ora bem... sexo... femi...
- Sexo? Hum... claro que sim...
- Pois... sexo feminino!
- Claro! Sexo feminino... e masculino... e muito...
- Muito?
- Muito bem. Muito bem, mesmo. O senhor é um verdadeiro profissional. Ora, depois do sexo o que se segue?
- Depois do sexo...?
- Bem... aí. Nessa papeleta! Está toda preenchida?
- Não, não. Tá tudo!
- Não faltará a morada? A morada, sabe, é uma coisa que é sempre bom saber... onde se mora... quem lá mora... quem lá está e quem não está a certas horas do dia... ou da noite...
- O quê?! Pra quê? Aqui o formulário não diz nada disso.
- O formulário! Diz muito bem. Mas... os formulários são tão impessoais... as pessoas... você!
- Eu?! Eu o quê!?
- Você. Você, com esse ar tão... tão... provocador, tão... matreiro... você precisa certamente da minha morada, não é?
- Matreiro?! Olhe queu sou muito profissional! Mas praqué queu preciso da sua morada? O formulário játá preenchido!
- Tem a certeza?
- Tenho sim, claro que sim! Tá tudo!
- Profissional! Muito profissional... Então... Olhe, faz-me o favor de não me apalpar as coxas? Já é a segunda vez!
- Como!!!?? Mas eu... mas eu...
- E como se atreve a fazer-me uma proposta dessas?! Hem?
- P-proposta?! Eu? Mas eu nem... m-m-mas eu... eu...
- Já Chega! Isto é um ultraje! O senhor ofendeu-me! Como se atreve a assediar-me dessa maneira?
- Ó minha senhora...!!! Eu-eu... M-mas... eu...
- Quero falar com o seu superior hierárquico! Já! Vou apresentar queixa por assédio sexual! Ora! Onde é que já se viu uma coisa assim!!!

quarta-feira, julho 19, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - BELIEVE TO SEE

- Gosto de chapinhar na água, assim pela tardinha...

- Também eu... especialmente quando a praia já não tem ninguém, como hoje...

- Olhe! As primeiras estrelas! Gosta de estrelas?

- Se gosto! As estrelas... o cheiro a mar... esta brisa... a partilha...

- Partilha?... comigo? ...Comigo! ...pensava que teria outro alguém com quem partilhar as estrelas...

- Não! Escolhi-o a si! De propósito!

- Mas... eu? Porquê eu?!

- Porque... esta noite sinto-me... inspirada... e... carente, percebe?

- Claro... Oh, sim, claro! Carente... e... como brilham os seus olhos! E os seus lábios...

- Brilham! Estão húmidos... quer senti-los? Sentamo-nos?

- Si-sim... claro, aqui.

- Sempre gostei de homens assim... musculados... que bem que cheira... huuummm...

- Pele de seda... uma seda... deixe-me beijá-la...

- E você um homem... másculo... deixe-me revolver esses cabelos e... hummm...

- Hummm Ahhhh...

- Ohhhh... ahhhh....

- Ohh! Minha querida...

- Hummm... mais... mais...

- É como... um sonho! Você é uma mulher de sonho! oohhh, humm...

- Sim, como um sonho... que se esfuma... huummmm

- Ohhh hummm... sim... mais... mais...

- *

- m-mas... ? hei... hei?

- *

- Onde estás?... tu... onde estás?! Onde estás? Hei! ONDE ESTÁS???!

- *

- Hei!!! HEI!!!!! QUEM ÉS TU??! VOLTA!!!! volta! volta... oh, v-volta...

terça-feira, julho 18, 2006

O CONTRATO ORGÂNICO

"Houve um tempo em que todos os membros do corpo
Se rebelaram contra a barriga; acusaram-na assim:
Que apenas como um abismo ela existia
No meio do corpo, preguiçosa e inactiva,
Ainda aguardando a vianda, nunca suportando
Igual trabalho com os restantes; onde os outros instrumentos
Realmente viam e ouviam, inventavam, instruíam, caminhavam, sentiam
E, naturalmente, participavam, ajudavam
No apetite e afeição comum
De todo o corpo. A barriga respondeu...
Para os membros descontentes, as partes amotinadas
Que invejavam a sua posição; mesmo assim muito aproximadamente
Como vós difamais os nossos senadores por isso
Eles não são como vós...
«É verdade, meus amigos e companheiros», disse ela,
Que recebo a comida geral a princípio
De que vós viveis; e próprio é,
Porque eu sou o armazém e a loja
De todo o corpo. Mas, se vos lembrardes,
Eu mando-a através dos rios do vosso sangue,
Mesmo para a corte, o coração, para a sede do cérebro;
E, através das bielas e serviços do homem,
Os nervos mais fortes e as pequenas veias inferiores
De mim recebem essa natural competência
De que vivem. E...
...embora todos imediatamente não possam
Ver o que eu despacho para cada um,
Todavia eu posso fazer os ajustes, que todos
De mim voltam a receber a farinha de todos
E deixam-me apenas o farelo...
Os senadores de Roma são esta boa farinha,
E vós os membros amotinados; pois, examinai
Os seus conselhos e os seus cuidados, digeri as coisas correctamente
Tocando no bem comum, vós verificareis
Que nenhum benefício público que recebeis
Procede ou vem senão deles para vós,
E de modo nenhum de vós próprios."

(Shakespeare, Coriolanus, I. 95-156)

segunda-feira, julho 17, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - sSsSsSsSsSsSsSsSsSsSsS

- Não posso.
- Não pode? Ou não quer? Enfim... acabámos de nos conhecer...
- Não posso, sabe, vou agora ao meu suicídio...
- Ah, ah... está a brincar... claro!
- Não, não estou... quer acompanhar-me?
- Co-como?! Acompanhá-la... ao seu suicídio... desculpe, nem estou em mim...
- Porquê?! Afinal, nada de mais...
- Está de mal com a vida? Que desespero é esse?...
- Desespero? Não! Desespero nenhum, meu caro amigo.
- Mas então porquê esse acto... tresloucado (desculpe!)
- É um hábito, sabe. Todas as quartas-feiras me suicido.
- Como?! Desculpe!?
- É... rejuvenescedor... e faz-me bem à pele... Vem?
- Bem... vou... vou...

- Entre, a casa é sua...
- Com licença...
- Acomode-se... bebe alguma coisa?
- Bem... sempre vai... su-suicidar-se?
- Ah, ah, ah... não é propriamente um suicido, sabe? É mais... como lhe disse, um rejuvenescimento.
- Uf!
- Vê? Olhe a minha pele... olhe... maisss de perto.
- Escamas? Tem a pele... em escamas?! É doença?
- Ah! Ah! Não! É a minha naturezzzza, sssssabe? Quer uma massssssçã...?
- Aaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh........

domingo, julho 16, 2006

DIÁLOGOS DE VERÃO - RECLAMAÇÃO

- Olhe... fachavore...
- Boa tarde. Diga, por favor.
- Olhe. Eu queria apresentar uma reclamação do inzame do 12º ano.
- De qual deles?
- Do inzame de porteguês.
- Do exame de português! Muito bem: Preenche esta folha e aqui, neste espaço, deixa escrita a sua reclamação! Está bem?
- Tá bem. Brigado.

«Nome : Joselindo Cascagrossa
Filho de: Francelino Temna Grossa
E de: Imaculada da Purificação Leva e Casca
Morada: Rua do Vai com Deus, 13 , Nenhures de Baixo

Reclamação:

Eu não koncordo com a nota do inzame de porteguês.
1 valore não se dá a ningem.
1 valore é ir lá e eskrver o nome.
De çarteza ca stora singanou e ela kria era eskrver 11 e inganosse e eskrveu 1 valore mas tá inganada.
O inzame era muitas preguntas e aquile era complicado e açim não é justo.
Uma peçoa tem k saber tudo e eskrver tudo e de pois não á tempo.
O tempo é curto e os inzames são muita cumpridos.
Nem um dissionário se pode uzar.
E eu estedei bué, buéé da comprenção do testo e a otragrafia e a sémantica.
Tudo. Estedei tudo. Até sabia o k foi o romantismo e o claçissismo e o realismo e essas coisas todas.
Tou praparado pro inzame, venho faser o inzame e a stora népia.
Mas o que eu não poço admetir é ka stora eskrveu na folha do inzame k me dava 1 valore por causa de dois erros munta graves.
E não é justo proque ela diçe keu dava bué da erros.
Ora sela por dois erros munta graves me dá 1 valore, atão pelos erros todos avia de dar por menos os 10 valores.
Disse keu eskrvia poco e lia inda menos e quiço é kera o prolema.
Mas não é vardade. É que né mêmo vardade.
Eu
por dia amando pra i mais de 200 SMS. escrevo bué e leio bué.


E eu fasso aqui esta reclamassão açim cumprida e tudo pra provar keu eskrvo muito e eskrvo bem.
E é uma injestiça ter 1 valore.
Por isso reclamo ó pro menos 10 valores.
Munto agardeçido.»

sábado, julho 15, 2006

FIRST THINGS FIRST

"(...)
Ao ouvir o barullho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: «Que pesado fardo; mais uma hora se passou!»
E ao dizê-lo, mostra geralmente um ar triste, como alguém condenado a uma grande tragédia. No entanto, logo a seguir principia uma nova hora!

Como nunca fui capaz de entender isto, julgo que se trata de uma doença grave. (...)
Suponhamos, com efeito, que um Branco tem vontade de fazer qualquer coisa e que o seu coração arde em desejo por isso: que, por exemplo, lhe apetece ir deitar-se ao sol, ou andar de canoa no rio, ou ir ver a sua bem-amada.
Que faz ele então?
Na maior parte das vezes estraga o prazer com esta ideia fixa: «não tenho tempo de ser feliz».
Mesmo dispondo de todo o tempo que queira, nem com a melhor boa vontade o reconhece.
Acusa mil e uma coisas de lhe tomarem o tempo e, de mau grado e resmungando, debruça-se sobre o trabalho que não tem vontadde nenhuma de fazer, que não lhe dá qualquer prazer e que ninguém, a não ser ele próprio o obriga a fazer.
Quando de repente se dá conta de que tem tempo, que tem realmente todo o tempo à sua frente, ou quando alguém lhe dá tempo - os Papalaguis dão frequentemente tempo uns aos outros, é mesmo a acção que mais apreciam -, nessa altura, ou já não tem vontade, ou já se cansou desse trabalho sem alegria.
E geralmente deixa para o dia seguinte o que podia fazer no próprio dia.

(...)

Encontrei uma única vez um homem que não se queixava de estar a perder tempo e que o tinha de sobra.
Mas esse era pobre, sujo e desprezado.
As pessoas desviavam-se, para o evitar, e ninguém o respeitava.
Não entendi tal comportamento, pois ele andava devagar e tinha um olhar sorridente, calmo e bondoso.
Quando lhe perguntei qual a razão disso, o seu rosto crispou-se e repondeu-me com voz triste:
«Nunca soube empregar o meu tempo de maneira útil; é por isso que não passo de um pobre-diabo desprezado por toda a gente!».
Aquele homem tinha tempo, mas nem mesmo ele era feliz.

(...)

Oh! meus queridos irmãos!
Nós nunca nos queixámos do tempo, amámo-lo e acolhemo-lo tal como ele era, nunca corremos atrás dele, nunca tentámos amalgamá-lo ou cortá-lo em pedaços.
Nunca ele nos deixou desesperados ou acabrunhados.
Se algum de nós há aí a quem falte tempo, que diga!
Todos nós o possuímos em quantidade, não temos razões de queixa.
Não precisamos de mais tempo do que o que temos, temos sempre tempo suficiente.
Sabemos que atingiremos o nosso alvo a tempo, e que muito embora ignoremos quantas luas se passaram, o Grande Espírito nos chamará quando lhe aprouver.
Devemos curar o Papalagui da sua loucura e desvario, para que ele volte a ter a noção do verdadeiro tempo que tem perdido.
Devemos destruir as suas pequenas máquinas do tempo e levá-lo a confessar que há muito mais tempo do nascer ao pôr do sol, do que ao homem lhe é dado gastar.
(...)".

'Discursos de Tuiavii, Chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul, recolhidos por Erich Scheurmann'